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A única simplicidade que vale a pena conservar é a do coração



  

   Comecemos, pois pela definição de simplicidade.  A simplicidade é uma qualidade daquilo que é simples; não é complexo; é a falta de pretensão ao agir. Entre seus sinônimos podemos citar: a pobreza; a humildade; a sobriedade; a modéstia; a moderação; e o despojamento.

   Deus nos deu diversos exemplos de corações simples e desprendidos das coisas terrenas. O mais notável e importante deles foi Nossa Senhora. A falta de amor no coração dos homens começou com Adão e Eva, e por Maria o amor voltou ao coração dos homens. Ela confiou, e se despojou totalmente de tudo. Com o seu “Sim” e o seu “Fiat” – faça-se – ela se entregou á Deus, e durante toda a sua vida na Terra mostrou sua humildade, sempre guardando no coração o que seu Filho Jesus lhe falava. O Fiat de Maria foi um desígnio de um sacrifício doloroso, de dedicação, entrega e compromisso, humildade e simplicidade; foi de grande valor espiritual para a humanidade. Deus precisava de alguém para trazer o Amor ao mundo, e escolheu Maria.

   “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra”, disse Maria ao escutar as palavras do anjo: “Alegra-te cheia de graça”. A perturbação de Nossa Senhora se deu por fruto de sua humildade, e da consciência de sua pequenez diante de Deus, Maria sempre foi possuidora de um simples coração. No grande abismo que há entre a nossa fraqueza, e a Onipotência de Deus, Maria é a ponte que une os dois pontos.

   O coração que se conserva simples nada complica e nada espera, apenas confia. Em seu livro História de uma alma, Santa Teresinha testemunha um fato ocorrido em sua infância¹: sonhara ela, que corria brincando, atrás de alguns demônios, e estes por sua vez fugiram dela. Até os demônios tem medo de uma criança quando ela está em estado de graça e confiando plenamente em Deus. O medo destes demônios que fugiram de Santa Teresinha pode ser explicado de uma única maneira; Deus habita o coração simples, e a pequena Santa possuía essa simplicidade em seu coração.

    As crianças são outro grande exemplo de corações simples. Elas são simples em seu modo de agir, de pensar, e em seus corações. As crianças tem a humildade de se fazerem pequenas, e de confiarem. Tem a pequenez de se entregarem nos braços de seus pais, e de Deus, como vemos, por exemplo, Santa Jacinta Marto e São Francisco Marto, e São José Sánchez del Río, que entegou-se inteiramente a Deus pelo martírio. 
   
   Devemos ter um coração de criança, para enamorar-se e cativar-se por Deus. Esse modelo de espiritualidade mostra-nos que pela graça divina, Deus habita em nós, quando estamos em amizade com ele – estado de graça por exemplo – e faz do nosso simples coração, Seu palácio real.

   Entretanto, nós seres humanos somos dotados do Livre Arbítrio, e somos livres para escolher como deixamos nosso coração. Muitas vezes tentamos adornar nosso coração, colocar nele sentimentos e coisas inúteis, que não nos levam á santidade. O coração se torna atribulado, cheio e ao mesmo tempo vazio. E é assim que acabamos deixando muitas vezes aquela simplicidade e pureza de lado. Onde habitaria Deus em nosso coração se não há espaço para ele? Onde Ele se hospedaria com sua corte celestial, se não há espaço?

   Santa Teresa D’Ávila, em Caminho da Perfeição diz nos:
“Quando uma alma começa, a fim de que ela não se alvorote vendo-se tão pequena para conter em si tamanha grandeza, o Senhor  não Se dá a conhecer.”²
   Assim é necessário o recolhimento ativo, que é a prática da oração da simplicidade.

  É no coração simples que Deus habita, é na simplicidade do coração que Deus faz moradia. Por isso, a lógica do Reino de Deus é viver os mandamentos e ter o coração desprendido, não apegado a nada deste mundo. É na simplicidade que Deus faz moradia, e vale a pena ter Deus em nossos corações.   
Pois assim como expresso na oração Adoro Te Devote,“Me immundum munda tuo sanguine. Cuius una stilla salvum facere”, “Lava-me, eu que sou imundo, em teu sangue.Pois que uma única gota faz salvar”. É necessário reconhecer o seu real estado, reconhecer a sua pequenez, e com humildade aceitar os desígnios de Deus.

   Finalizo com um trecho da oração feita por Santo Agostinho, e uma das mais belas orações; Tarde Te Amei. Essa oração mostra o quanto Santo Agostinho teve a simplicidade de reconhecer o seu real estado, e o quanto ele precisava que Deus habitasse nele.

“Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.”³ 



¹ - TERESINHA, Santa. A história de Uma Alma.
² - TERESA, Santa D’Ávila. Caminho da Perfeição: Capitulo 28.
³ - AGOSTINHO, Santo. Tarde Te Amei. ORAÇÃO.


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