("Amigos para sempre - II" de Victor Bauer, óleo sobre tela)
Enquanto conversava casualmente com uma amiga, discutíamos
brevemente algumas questões referentes ao impacto de certos tipos de amizades
em nossa vida, e como estas tinham poder de nos afetar, tanto positiva quanto
negativamente. Durante a conversa, usei uma analogia como forma de tornar mais
clara a transmissão de minhas impressões sobre o assunto, em que usava a imagem
de uma fogueira ou tocha como forma de descrever a imagem de Deus “provador” de
toda e qualquer relação afetiva que viéssemos a ter. A ideia me pareceu
relativamente contundente, e decidi expô-la aqui também, esperançoso de que
estas considerações sejam de alguma utilidade aos que as lerem.
A priori, tomemos a imagem de Deus como uma grande fogueira:
brilhante, incandescente, crepitante e chamativa. A nós cristãos, que vivemos
num mundo dominado pelas trevas e pelo frio cortante – isto é, pelo pecado, tanto
externo quanto interno – é inevitável (ou no mínimo, lógico) que desejemos
ardentemente buscar esta fonte de calor, seja pelos benefícios desta ou
simplesmente pela admiração desta luz tão ofuscante. Buscar a Deus é o que dá
sentido à nossa existência: é dele que procede todo a ordem no universo, e é
para ele que tudo converge; assim sendo, ao cristão, uma vida sem Deus é uma vida
à mercê do caos e da morte, seja ela física ou espiritual. Desta forma, buscar
esta chama é aquilo que nos vivifica e nos ilumina, é o que nos faz continuar
caminhando, mesmo em meio às tempestades e névoas da vida cotidiana. Trilhar
esse caminho rumo à luz – ou seja, rumo ao estado de comunhão plena com este
Deus de majestade – é o que faz tudo valer a pena, e como nem todos conseguem
segui-lo, cada companhia durante o trajeto é bem-vinda.
Neste ponto, destacamos qual o primeiro grande elemento de
Deus como “termômetro” de nossas afeições: a nós que buscamos um sentido
transcendente nesta vida, é raro encontrar alguém caminhando na mesma direção,
e todo aquele que encontramos no caminho constitui um companheiro valiosíssimo na
viagem. Quantas vezes não nos deparamos com certas “amizades” que não fazem
nada senão nos atrapalhar? Pessoas que, sem nenhum propósito de busca da
verdade, nos incentivam a uma total e patológica ataraxia espiritual, por vezes
chegando até a nos desencorajar em nossa caminhada, nos levando mais e mais a estados
de frouxidão e tibieza com relação à Fé? Pois bem, estas pessoas constituem não
apenas pedras no caminho, mas também predadores vorazes que, fugindo do fogo
(haja vista que a chama ameaça as bestas), tentam nos desviar do caminho com
promessas e ofertas de chamas fugazes provenientes de isqueiros ou minúsculos
fósforos (aqui destacando as falsas promessas de alegria mundanas, que oferecem um
tépido e passageiro prazer, a troco de longos períodos de sofrimento e
arrependimento). Nesta perspectiva, poderíamos pontuar a busca por Deus como um
tipo de “filtro” em nossa vida afetiva: consequentemente, só haveríamos de
conhecer verdadeiramente aquelas pessoas que nos pudessem oferecer algum bem ou
crescimento pessoal, ainda que essas pessoas não fossem cristãs. Um incentivo,
um apoio ou um bom conselho: aqueles que se comprometem com o chamado de Deus -
as labaredas que saem desta fogueira – hão de encontrar em suas companhias
apenas aquilo que lhes possa ser útil de alguma forma.
As próximas considerações não são tanto benefícios, mas
sim advertências; tomei como base uma reflexão abordada por C. S. Lewis em seu
livro Os quatro amores (não que o
tenha lido ainda): quando deixamos que um afeto se transforme em um deus, é aí
que ele se torna um demônio. Como eu disse antes, a caminhada espiritual permite-nos
conhecer pessoas que não apenas buscam o mesmo fim último que nós, mas também
que nos alimentam e nos fortificam espiritualmente durante o percurso. Quanto
mais perto da “Grande Chama” estamos, mais esta nos oferece calor, calor este
que, unido ao nosso próprio calor humano proporciona-nos conforto e segurança.
Assim são os afetos embasados em Deus: nos aquecem, nos fortificam, nos
confortam e nos alimentam tanto quanto possível. Todavia, muitas são as vezes
em que pervertemos esse amor, seja ele numa amizade ou num relacionamento
amoroso: deixamos que estas afeições se convertam em apegos, colocando-as como
fim em si mesmas e sentido primordial de nossa alegria. Dentro da nossa
metáfora, é como se crêssemos que aquele mísero calor humano constituísse em si
a fonte de todo os benefícios da Grande Chama, e nos apegamos mais a ele do que
à sua fonte. Em linhas gerais, isso quer dizer que muitas vezes deixamos que um
amigo, parceiro ou até mesmo familiar, se coloque como fonte de toda a nossa
felicidade e prazer, transformando-o num deus, dando a ele a função de sentido
de nossa vida, sendo muitas as vezes em que chegamos a coloca-lo à frente da
verdade divina, deixando de corrigi-lo caridosamente, por medo de atritos ou “respeito
humano”. A “demonização” desse afeto surge quando, deslocado de sua fonte
original, começamos a crer nesse mero calorzinho como, em si, suficiente às
nossas vidas. Uma vez afastado de sua fonte, esse calor tende a se adaptar à
temperatura local, esmorecendo e por fim se apagando completamente, tornando as
partes envolvidas presas fáceis aos inimigos que espreitam. Nessa perspectiva,
o que esta afeição desordenada proporciona é, antes de tudo, um afastamento de
Deus, em seguida, uma ocasião propícia para uma série de pecados – quiçá pecados
contra a castidade. Sem a alimentação da Grande Chama, este afeto perde o
sentido, definha e morre. Desta forma, toda e qualquer amizade ou relação
interpessoal voluntária deve estar, em algum grau, embasada em algo mais, pois,
se colocando como fim em si mesma, se destrói e é consumida pelos vermes do
ressentimento, culpa, insatisfação e atritos dos mais diferentes gêneros.
Assim, quando Deus nos diz pela boca do profeta e de seu filho as palavras "Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e
aparta o seu coração do SENHOR!" (cf. Jr. 17, 5) e “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; e
quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (cf. Mt.
10, 37), é disso que se trata, pois o próprio Deus sabe que todo e qualquer
amor só se sustenta e se capacita ao enfrentamento das adversidades se estiver
alicerçado no próprio amor divino - isto é, a caridade - testemunhada por ele.
Outra forma de afeto desordenada é quando, ao atingirmos
um estado minimamente satisfatório de proximidade com a Chama e sermos mais
aquecidos por ela, deixamos que a nossa transmissão de calor constitua em nós
uma ocasião de presunção e vaidade: amaciamos o nosso ego com a ideia de “dignos
transmissores de calor” e nos esquecemos de que toda temperatura produzida por
nós é nada mais que uma mera condução da real chama que nos aquece. Este tipo
de presunção de consciência nos faz pressupor uma certa autossuficiência que
lentamente também nos afasta daquilo que é o real sentido de nossa “iluminação”.
Aqui, trato mais estritamente do narcisismo e do farisaísmo modernos. O cultivo
de algumas virtudes pessoais, intelectuais e espirituais muitas vezes nos levam
a uma soberba desmedida e falsa sensação de poder: uma ideia falaciosa de que o
“brilho” que irradiamos é meramente nosso e que por isso devemos ser estimados,
elogiados e até mesmo cultuados por aqueles que estão ao nosso redor, erguendo
falsos píncaros e altares à nossa imagem que, ao serem arruinados nos levam
também de volta à escuridão e ao frio. Os falsos ídolos e falsos santos são
desmascarados e afastados da Graça divina de uma tal forma que apenas um
arrependimento sério e penitente podem remediar. Quantas não são as vezes que
deixamos a integridade da nossa própria imagem subir a cabeça e nos conduzir a
um tipo de culto pessoal? Assim, revela-se a natureza demonizante desse afeto:
inicialmente bom, pois inflamado por Deus e finamente pervertido por nossa
própria miséria. Isso se agrava ainda mais quando encontramos pessoas tíbias
que querem desfrutar de um pouco de calor mas, por carregarem uma certa frieza
interior são ainda incapazes de se aproximar plenamente do fogo, optando por
vias mais cômodas, isto é, a devoção e piedade de alguns cristãos, das quais
podem tirar um certo proveito descompromissado. Este tipo de afeto, unido ao
amor-próprio desordenado, também nos leva a ruína.
Muitas são as considerações a respeito deste assunto que
ainda podem ser feitas, mas limito-me aqui apenas a algumas. As outras, o
Espírito Santo talvez suscite pessoalmente no coração de cada um. Entretanto,
de forma prática, gostaria de frisar pelo menos alguns pontos essenciais. Um
afeto embasado em algo maior (Deus, no caso) não se trata de um mero utilitário,
um meio para um fim - como se aquele que praticasse esses atos simplesmente
instrumentalizasse e manipulasse aquele ao seu lado afim de tirar-lhe algum
proveito -, mas sim, significa uma entrega mútua de ambas as partes: um pelo
outro, e todos por Deus – afinal, só assim se praticaria a verdadeira caridade
divina. A outra consideração é: a
virtude está no meio. Toda afeição, por mais sincera que seja, pode ser
pervertida caso se perca o controle, fazendo assim que anjos virem demônios,
afastando-nos muito mais de Deus do que nos aproximando Dele. Por fim, uma
repetição do que já foi dito: apenas aquelas relações construídas sob algo
maior são capazes de durar; estas, ao queimarem vorazmente, atraem sobre si a
atenção dos que buscam luz e calor, e afastam de si os répteis de sangue frio,
as serpentes peçonhentas e os predadores que espreitam na noite; vivificam,
inspiram e alimentam nossas almas, impelindo-nos cada vez a sermos melhores.
Pax et bonum!

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