A cultura japonesa sempre me despertou certo
fascínio por “n” motivos. Um deles – e talvez o maior – pode ser o fato de que
a cultura japonesa é, essencialmente, conservadora. Valores de disciplina,
obediência, hierarquia, educação e honra são perpetuados nas mentes e almas das
pessoas desde a mais tenra idade, e remontam até o Japão feudal, com seus
samurais, xoguns e códigos ferrenhos de ética e moral. Todavia, outra coisa
ainda me instiga: a relação que esses valores têm com o amadurecimento dos
indivíduos e como isso pode nos ajudar a fazer uma breve, mas interessante
análise antropológica da nossa sociedade ocidental.
No Japão, as crianças são ensinadas desde cedo a
respeitarem os mais velhos. Isso começa já na linguagem, uma vez que é comum
encontrar no dialeto japonês uma certa frequência no uso dos mais variados
pronomes de tratamento para os mais variados tipos de pessoas: há, por exemplo,
o “-san”, utilizado para pessoas mais velhas em geral; o “-kun”, para pessoas
da mesma faixa etária; o “-senpai”, usado pelos estudantes calouros para se
referirem aos veteranos e até o “-sama”, que seria basicamente um superlativo.
No Japão, deixar de usar esses pronomes é sinônimo de rudeza, irreverência e
até falta de educação, e quem se comporta desta maneira pode até ser visto com
maus olhos. O mais interessante disso é notar como esse tipo de disciplina
perpetua desde cedo a noção de hierarquia na mente das pessoas, ensinando-as a
respeitarem os mais velhos e a valorizarem a manutenção da ordem. Esse padrão
educacional contribui e muito para que os indivíduos desenvolvam disciplina,
uma vez que a cultura japonesa valoriza bastante o aprendizado em cascata: os
mais experientes sempre têm algo a ensinar aos mais imberbes. Tudo isso está
estreitamente relacionado com a maturidade emocional e intelectual dos jovens
japoneses, haja vista que “amadurecer” para os nipônicos significa, mais do que
tudo, lapidar aquilo que se aprendeu dos “sensei” desde a infância. Não tenha
dúvida ainda de que isto é um dos principais motivos de o Japão ser país-modelo
em muitos aspectos. Acima de tudo, o que a sociedade japonesa nos pontua é que
o amadurecimento é constituído principalmente de obediência, e que por meio da
obediência podemos dar início ao trabalho das virtudes interiores e,
consequentemente, da maturidade.
Dito isto, retornemos ao ocidente.
No capítulo introdutório do livro “Podres de mimados – as consequências do
sentimentalismo tóxico”, o psiquiatra e crítico cultural Theodore Dalrymple
faz uma breve descrição da situação educacional das crianças no Reino Unido,
apontando como a infância se tornara um período de completa anarquia social.
Assim escreve:
“Hoje em dia, os pavios são curtos,
as facas são longas, e as crianças rapidamente formam bandos para defender seu
direito inalienável ao egoísmo absoluto.”
Achei curioso o modo como sua exposição casa
perfeitamente com o que vemos não apenas na sociedade britânica, mas também na
maior parte do mundo ocidental; e não apenas na infância, mas também – e
principalmente - na adolescência.
Basicamente, o que se vê é uma epidemia de pequenos
monstrinhos: crianças e jovens absurdamente irritadiços, mesquinhos,
irreverentes, egoístas, autoritários e absolutamente incapazes de ouvir um
“não”. Imaturos e birrentos, pequenos protótipos de ditadores que só sabem
respeitar uma autoridade se esta puder, de alguma forma, servir aos seus
próprios interesses (sejam os pais ou professores, por exemplo). Não é difícil
achar uma criança berrando histericamente num supermercado graças a um doce que
lhe foi negado, ou um adolescente possesso por ter que fazer uma atividade a
mais na escola. Em meio à cacofonia e à anarquia institucionalizadas, perdeu-se
completamente toda e qualquer possibilidade de amadurecimento, e o que vemos
hoje é um fenômeno inimaginável tempos atrás: os jovens estão crescendo, mas
apenas de corpo; a mente, tão limitada quanto quando o indivíduo tinha lá seus
dez anos, pariu a uma “coisa” que, apesar da maturidade de corpo, continua
insegura, fraca e ultrassensível. As gerações Y e Z – como denominados em
sociologia os indivíduos nascidos mais ou menos entre 1980 e 2010 – sofrem de
um mal-estar social e emocional terrível que tem potencial não apenas para
enfraquecer, mas também para implodir aos poucos a nossa civilização ocidental.
Para começar definitivamente nosso “diagnóstico”,
tomemos primeiro a questão da obediência. Como já exposto, a maioria dos jovens
hoje desconhece quase que totalmente o sentido da palavra “obediência”: submeter-se
a uma autoridade previamente estabelecida sem desacatar suas ordens parece
estranho aos meninos e meninas de nosso século - em parte pela recente
proliferação de um padrão educacional romântico rousseauiano. Alimenta-se na
mente das pessoas a ideia de que a infância seria sinônimo de pureza e bondade imperscrutáveis
e a adolescência, de jovialidade e entusiasmo invencíveis; une-se ainda a isso
a fantasia de que esses grupos vivem num absoluto “estado de graça”, onde a
aprendizagem e a integridade moral florescem naturalmente (“O homem nasce bom, e a sociedade o corrompe”, lembra-se?).
Desta forma, oferecer instrução e correção seria um pecado imperdoável: o que
se deve fazer é dar livre curso a estas naturezas dóceis, até que estes anjinhos
afáveis convertam-se em cintilantes querubins celestes. O resultado? A total
ausência de noções de submissão e autoridade - princípios indissociáveis da
vida comunitária -, o que levaria consequentemente à ausência de frustrações
comuns à vida humana. Ora, ser obediente implica muita vezes em colocar a
vontade de um superior antes da sua, e esses contatos com pequenas
contrariedades criam as primeiras noções de maturidade: o indivíduo começa
entender que nem tudo é como se espera que seja. Abolir essa ideia é alimentar
uma falsa noção de poder, onde o indivíduo entende que não há barreiras para
sua autoridade, e caso estas venham a aparecer, que sejam derrubadas
imediatamente. Te surpreende agora filhos que mandam nos pais ou alunos que
espancam professores?
Em sequência, temos outro fenômeno interessante: a
ascensão da massa. Como já colocado, a eliminação dos princípios de obediência
hierárquica leva a uma inflação do ego e alimentação da falsa ideia de poder
sem limites. Porém, qualquer pessoa é capaz de enxergar com facilidade que o
poder dentro de uma sociedade não é absoluto, mas mutável e circunstancial.
Nesse sentido, se nossos pequenos tiranos quiserem continuar mantendo o poder, precisam
inevitavelmente de algo que os capacite, e a partir daí começam a se organizar
numa massa. Os jovens de hoje simplesmente NÃO existem fora de um grupinho ou
“panelinha”. Como animais à caça, se organizam em bandos, garantindo assim a
perpetuação da ilusão de poder. Dessa forma, a própria noção de indivíduo se
perde, e a pessoa começa a fazer de tudo para continuar desfrutando dos
privilégios de se integrar àquele grupo (até mesmo o sacrifício de uma mente
livre em prol de uma uniformidade intelectual que o permita continuar fazendo
parte daquele meio). Assim, segue-se a obstinação, anarquia e a delinquência
juvenil. Novamente, te surpreende a violência provocada contra aqueles que
atentem contra esse “sonho coletivo”?
A busca por poder, porém, não é o único fator que
leva a essa integração de massa. Retornaremos a isso mais tarde.
Bem, como é possível prever – e enxergar ao nosso
redor – a união entre insubordinação e coletividade não apenas infantiliza o
indivíduo, mas também o potencializa. E poder somado a imaturidade é uma
combinação quase tão inteligente quanto poder e Estado. Desta forma, temos um
efeito borboleta destrutivo, onde a ausência de correção leva ao poder
desenfreado, que leva ao caos, que leva à violência. Sexo, álcool, drogas e
ideologias (se me permite a tautologia) estão mais em voga do que nunca, e invariavelmente
fora de controle, pois o público que os abraça também está fora de controle.
Não apenas irreverentes, mas mimados. Hoje em dia, a imaturidade moral divide
bastante espaço com a imaturidade emocional, e é desse fator que trataremos
agora.
Bem, observando a questão da obediência e a falta da
mesma pela ótica emocional, poderíamos facilmente notar que os efeitos nocivos
da falta de hierarquias e da eliminação da experiência da submissão levam
consequentemente à perda de outra experiência importantíssima para a formação
do caráter: a frustração. Obedecer e se submeter são escolhas que muita vezes
implicam em aceitar as contrariedades, os sofrimentos e as frustrações do dia a
dia, já que estes fatores são indissociáveis à uma vida humana comum. Em geral,
são pequenos infortúnios, mas que exigem paciência e autocontrole (motivos
pelos quais obedecer geralmente pode parecer tão difícil). Assim sendo, para
que se realize frutuosamente a experiência da obediência, há uma grande
necessidade de buscar equilíbrio emocional, dominar os próprios impulsos e ir
mais além do que a mera superficialidade emocional geralmente nos permite, já
que se faz necessário o cultivo da racionalidade e autoconsciência - algo muito
próximo da meditação. Logo, renegar à experiência de participar de uma
hierarquia e se sujeitar à mesma implica em deixar de entrar em contato com
emoções e situações que, apesar de serem geralmente desagradáveis, são
inerentes ao ser humano. Consequentemente, o indivíduo não consegue realizar os
processos de autodomínio emocional e de exercício da razão prática. O resultado
é um indivíduo volátil, sentimentalista e frágil, pois, uma vez que este não
consegue sequer lidar consigo mesmo, não terá chance nenhuma em lidar com o
mundo. Nesse contexto, reina a insegurança, a impulsividade e fraqueza de mente
e de espírito. Geralmente vemos nesse grupo dois extremos (e creio que os
homens em geral expressem essa volatilidade com mais intensidade que as
mulheres): indivíduos indolentes e extremamente fleumáticos, que só permitem a
si mesmo uma expressão emocional se esta for a da ira, porque no fundo são
incapazes de lidar com seus próprios sentimentos, e sua insegurança os impele a
varrer tudo pra debaixo do tapete. Estes geralmente são idolatrados como
“machos alfa”. Do outro lado, um tipo lânguido,
frágil emocionalmente e totalmente dominado por complexos de inferioridade, com
as emoções absolutamente fora de controle, à flor da pele e alicerçadas
unicamente na incerteza. Esse grupo geralmente tem uma taxa maior de desprezo
popular, mas é muitas vezes acolhido por menininhas que enxergam nesse
arquétipo algum tipo de ícone “pop”. Ambos os extremos são o reflexo de uma
geração que não consegue exercer domínio sobre si mesma e que acaba sendo
absorvida por uma irracionalidade sentimentalista, motivo pelo qual geralmente
temos a impressão de que essas pessoas são bombas-relógio à beira da explosão.
Como pudemos perceber, a fragilidade emocional
dessas pessoas está diretamente associada à eliminação da experiência do
autodomínio. Ao crescerem nessa educação, os jovens não apenas não são capazes
de reconhecer a necessidade dessa experiência, mas aprendem também a odiá-la e a
temê-la, uma vez que sua insegurança alimenta-lhes a ideia de que talvez não
sobrevivam a ela. Assim, acabam repudiando também a ideia do silêncio e da
solidão, fatores indispensáveis para o processo anteriormente descrito. Outra
implicação grave disso é a total anulação da capacidade de se estabelecerem
laços afetivos, já que relações de amor e/ou amizade dependem profundamente da
capacidade das partes envolvidas de saberem lidar com os sofrimentos,
contrariedades e frustações advindas das fraquezas do objeto de seu afeto. O
jovem moderno é, em geral, incapaz de amar, uma vez que sua desordem emocional
o torna incapaz de abraçar os pequenos espinhos provenientes de alguma relação
afetiva. Ele não consegue manter uma amizade real porque não admite que seu
amigo cometa falhas que possam desagradá-lo em algum grau – o que implica numa incapacidade
de compreensão e perdão dos erros alheios, junto a um mórbido cultivo do rancor
e do ressentimento – e nem consegue amar de verdade porque a simples ideia de
sacrificar seu estado perpétuo de bem-estar “apenas” para realizar a dolorosa
experiência da entrega de si (uma vez que amar significa diretamente entregar-se).
Em suma, relações afetivas reais dependem de expressões emocionais sóbrias e
racionais, afim de perpetuá-las, ainda que isso signifique sofrer alguns
“contratempos sentimentais”. Como o jovem imaturo só conhece o sentimentalismo,
essas relações tornam-se escassas e até mesmo impossíveis.
Une-se a isto a necessidade, geralmente
infantilizada, de fazer parte de algo, se integrar em algo, e de achar seu
lugar no mundo. Digo “geralmente” porque o desejo de se encontrar no mundo faz
parte da natureza humana, visto que nenhum homem é uma ilha. Digo também
“infantilizada” porque o suprimento genuíno deste desejo necessita diretamente
do autodomínio e da estabilidade de mente e espírito, uma vez que para que eu
saiba onde eu me encaixo no mundo eu preciso primeiro descobrir quem eu sou de
verdade. Esse processo de descoberta de si mesmo é indissociável de uma
experiência de interiorização que depende muito da solidão e do silêncio para
que seja eficiente. Todavia, como vimos, o jovem moderno repudia a tudo isso, e
por isso infantiliza o processo de autodescoberta ao criar vias mais rápidas e
cômodas (como é de praxe das gerações Y e Z) que não necessariamente dependem
dos fatores anteriormente pontuados. A principal delas é a criação de “bandos”.
Sejam os colegas de escola, os amigos do “rolê” ou
até mesmo os amigos virtuais, o jovem moderno depende diretamente da companhia
e presença constante de outras pessoas ao redor, justamente para simular uma
integração; transforma assim o coletivo em seu suporte de vida: na massa,
sente-se parte de algo, sente-se poderoso e pode, finalmente desfrutar de uma
estabilidade emocional, ainda que ilusória. Porém, a desordem interna faz-lhe
na alma um barulho ensurdecedor e angustiante, um barulho de uma mente que
clama urgentemente por ordem. A isto o indivíduo responde tapando os ouvidos e
buscando, mesmo que inconscientemente, distrair-se e esquecer-se do grande caos
interior que o assola. Qual o sinal disso no mundo real? Ora, jovens rodeados
de música alta e televisores ligados vinte e quatro horas por dia, smartphones sempre à mão e um fluxo
monstruoso de informação – quase totalmente inútil ou irrelevante – nas redes
sociais. O caos interior produz ainda um vazio angustiante, proveniente da
“superexteriorização” do indivíduo e da total falta de vida interior. À
insegurança soma-se a carência e a necessidade de reafirmação, não apenas
consequência, mas também alargadores de seu desequilíbrio emocional. Isso
talvez nos ajude a entender o porquê dos jovens sentirem tanto prazer em tirar
mil fotos de si mesmos por dia e compartilhar toneladas de fatos inúteis sobre
sua vida e/ou rotina: a ideia de ser uma “celebridade virtual”, as curtidas, os
elogios, a impressão fictícia de que se tem “fãs”, reais e leais seguidores -
ainda que isso seja, na prática fantasioso - e principalmente a mentira
reconfortante de que o mundo os venera ajuda a preencher, mesmo que
superficialmente o vazio interior. Socialmente falando, a vida virtual
tornou-se um verdadeiro entorpecente, não apenas para quem a tem ativamente,
mas também para aqueles que a alimentam esporadicamente. Uma breve visita ao Facebook pode se equiparar a um passeio
por Chernobyl e te deixar intelectualmente doente por alguns minutos.
O saldo final disso tudo é uma massa gigantesca,
barulhenta e disforme de gente vazia, egocêntrica, mimada até os ossos e
infantil até o tutano, individualmente frágil e instável, mas coletivamente
volátil e explosiva. Essa massa, ligeiramente totalitária, é incontrolável e
tem muito mais voz do que deveria, determinando aquilo que deve ser acatado por
todos. Verdadeiros “cavaleiros do apocalipse”, progenitores da desordem e
parteiros da violência, cuja religião é o narcisismo e cujo dogma central é o
prazer absoluto, incapaz de se organizar, seja exteriormente ou interiormente.
Uma massa insatisfeita com o mundo e consigo mesma, que quer tudo, mas ao mesmo
tempo não faz ideia do que quer, desumanizada e bestializada que, para
completar, domina a cultura vigente e, despreza totalmente qualquer expressão
de cultura ou tradição erudita que seja superior à barulheira infernal que esta
geralmente promove. Não falo apenas de música, mas também de todo e qualquer
tipo de mídia que exalte ou promova esse estilo de vida caótico. Enfim, estamos
diante de um mal-estar social tão denso que nos faz questionar se um estilo de
vida de qualidade ainda é possível, mesmo em meio à essa espessa fumaça de contracultura.
Noutras palavras, se é verdade que “os jovens são o futuro da nação”, há de se
perguntar: que tipo de futuro será esse?
Grosso modo, este ensaio não pretende ser a solução para a
crise vigente, apenas lança algumas visões sobre a mesma - afinal, o primeiro
passo para se resolver um problema é admitir que se tem um problema, não é?
Enfim, talvez venhamos a apresentar futuramente algumas contramedidas práticas
à essa crise, mas no presente momento, deixo apenas alguns pontos de reflexão e
um consolo: aos que sentem os efeitos desse mal-estar, vocês não estão
sozinhos.

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