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O mal da pornografia II – consequências práticas




(“A Tentação de Santo Antão”, por Salvator Rosa)

Aproveitando o texto “O mal da pornografia” escrito pelo confrade Luiz Augusto aqui do blog (cujo link estará ao fim deste texto), tratarei aqui de mais algumas reflexões acerca de tão importante e tortuoso tema, abordando principalmente os efeitos do consumo de pornografia na psique e no modo como o consumidor se relaciona com os outros, apontando que a pornografia vai muito além de uma “inofensiva diversão indecente”.
Sir Roger Scruton, em seu livro “Como ser um conservador” nos traz alguns pensamentos interessantes a este respeito. Falando sobre os riscos e responsabilidades das relações humanas escreve o seguinte:

“O viciado em pornografia tem alguns dos benefícios da excitação sexual sem assumir quaisquer dos custos normais; mas os custos fazem parte daquilo que significa o sexo em uma vida emocional madura e, ao evita-los, estamos debilitando a própria capacidade de estabelecer um vínculo sexual real.”(1)

“Nos encontros sexuais é seguramente óbvio que esse processo de ‘sair’ com o outro deve ocorrer se houver amor genuíno ou se o ato sexual for algo mais do que a fricção de partes do corpo. Aprender a ‘sair’ dessa maneira é um processo moral complexo que não pode ser simplificado sem deixar o sexo de fora do processo de vinculação psicológica. Parece-me claro que o que está cada vez mais em risco é a criação de vínculos e a causa é, precisamente, o prazer sexual vir sem justiça ou compromisso.” (2)

A partir disso somos capazes de enxergar a primeira dimensão desumanizante da pornografia: a perda da responsabilidade nas relações humanas. Numa sociedade civilizada como a nossa, o processo pelo qual precisamos passar antes de alcançar uma relação afetiva sexual é lento, longo e trabalhoso: este envolve uma série de questões jurídicas (como a maioridade legal); envolvimento emocional com o outro (processo que, dentro do namoro, por exemplo, pode levar dois, três, cinco anos, etc.); integridade moral e psicológica estáveis; compromissos de fidelidade e respeito e, em muitos casos o compromisso ainda mais concreto de uma união matrimonial. Ao indivíduo comum, o sexo legal depende muito desta “burocracia” e de altas doses de sacrifício, fator que coloca a relação sexual moralmente sadia dentro de uma espécie de “esfera de valor”, tornando-o assim, algo “sagrado”. Com o advento da pornografia, o homem foi capaz de vislumbrar a possibilidade de adquirir prazer sexual sem a necessidade de passar por todos esses processos, recorrendo a esta saída mais rápida, eficiente a curto prazo e mais momentaneamente gratificante. A pornografia dá ao homem a possibilidade de ser covarde, renunciando ao sacrifício inerente e inevitável às relações humanas. Assim sendo, o primeiro efeito prático dessa prática é matar o amor: sem a experiência da responsabilidade, o homem perde, por conseguinte, a experiência da entrega e da doação, involucrando-se num “pseudoparaíso” fictício onde pode ter tudo a troco de nada. A desumanização presente na pornografia não atinge apenas os indivíduos instrumentalizados nos milhares de sites pornô presentes na internet, mas também aos indivíduos que os acessam, afastando-os cada vez mais das experiências presentes no mundo real.
Os efeitos concomitantes a isto vêm todos em cascata: quanto mais a pessoa vive naquele mundo, menos vive no mundo real. A “realidade” apresentada pela pornografia é simplista e assustadoramente inebriante, pois mostra ao homem um mundo onde todos podem ser felizes 24 h por dia a um custo muito baixo, onde os homens e mulheres são irrealmente perfeitos e onde tudo é permitido, onde não há barreiras para o prazer e onde as pessoas aceitam se submeter “livremente” a todo tipo de prática, não importando o quão violenta ou grotesca seja. Trancado num quarto e de celular à mão, tudo é permitido. Além da covardia, a pornografia também incentiva a imaturidade, haja vista que isenta o homem das responsabilidades e obrigações do mundo real, deixando que este viva numa realidade onde pode ter tudo o que quer, quando quer e como quer. O universo das mídias pornográficas é tão adorado justamente porque dá ao indivíduo a possibilidade de satisfazer seus desejos mais mesquinhos, infantis e obscuros e fazendo-o perder cada vez mais e mais contato com a realidade que o cerca. Daí tiramos mais um efeito nocivo do consumo de pornografia: a liquidez das relações humanas.
O viciado em pornografia acostuma-se com a ideia da liberdade absoluta de tudo e de todos a um nível tão profundo que este não consegue mais criar vínculos duradouros com ninguém, pois percebe que na vida real, pessoas não são brinquedos. Diferentemente de suas “bonequinhas de brinquedo”, mulheres reais possuem personalidade, pensamentos, carisma, sentimentos; não estão dispostas a tudo e exigem – se tiverem o mínimo de amor próprio – compromisso e reciprocidade. Um voyeur viciado em filmes pornô é incapaz de compreender esta ideia, o que acaba por torna-lo um ser insatisfeito, volátil e solitário. Por que a maioria dos namoros hoje em dia acaba de forma tão rápida? Ora, justamente pelo fato de que as pessoas nessa sociedade hipersexualizada simplesmente se esqueceram de que são pessoas, e nesse mundo de “vale-tudo” o que há de reinar é a insatisfação absoluta. Homem e mulher querem amar e ser amados, mas, graças à instrumentalização do sexo e dos corpos humanos, esqueceu-se como se ama. A partir daí conhecemos a próxima grande dimensão perniciosa da pornografia: colocar as pessoas num universo de quimeras.
Os corpos “vendidos” nessa indústria são sempre perfeitos, bem delineados, livres de qualquer defeito ou deficiência, um verdadeiro deleite aos voyeuristas. Todavia, quem conhece o mínimo da indústria do entretenimento sabe que tudo ali é falso. Desde os físicos e expressões aos sentimentos lá expressados. Alguns litros de silicone, cirurgias, uns comprimidos e mais umas boas doses de Photoshop e voilà: um exército de homens e mulheres dispostos a passarem duas horas transando em frente a uma câmera, onde toda e qualquer intimidade fica escancarada e abolida. Para uma pessoa comum, é mais do que claro que é impossível achar alguém assim no mundo real, e caso se ache, o sentimento é de estranheza, não de atração. Para o viciado, porém, esta realidade não é tão clara e este, já acostumado com seu mundinho de monstros, começa a buscar incessantemente por algo que se adeque minimamente àquilo que ele vê nas telas; e como se pode deduzir, ao não encontrar, mais frustração se forma, empurrando-o cada vez mais para aquele mundo onde “sonhos podem ser reais” e fazendo-o mergulhar mais fundo de abismo em abismo.
Assim, o viciado em pornografia é cada vez mais levado à escravidão e à escravização: ele mesmo começa a se ver preso num pesadelo transvestido de sonho, irreal e impraticável, ao passo que se torna mais e mais incapaz de enxergar pessoas como pessoas, tratando-as meramente como meios para um fim, expondo-se e acostumando-se cada vez mais com o mórbido e o grotesco. Retomando o que foi dito antes, o indivíduo aprisionado por este vício não é mais capaz de enxergar e lidar com a profundidade de um ser humano, pois, cego pela covardia e pela imaturidade, não consegue compreender a ideia de que uma pessoa possa ser bem mais que um mero corpo nu. Aos homens (levando em consideração que são o público majoritário deste tipo de material), não se envolvam com este tipo de coisa, e se já o fazem, que parem imediatamente. A pornografia mata lenta e silenciosamente não apenas a nossa capacidade de amar, mas também nossa capacidade de se sacrificar e doar-se pelo outro, que é a nossa vocação primordial. Às mulheres, fujam desse tipo de pessoa. Alguém que acha normal uma moça ser espancada e chamada de “vadia” durante longos minutos na frente da tela de uma câmera dificilmente vai ser capaz de entender o que é uma mulher de verdade e trata-la como tal; limitando-se apenas ao uso conveniente e posterior descarte.
Enfim, este texto não pretende ser apenas um discurso moralista ou a palavra final sobre o tema: limito-me aqui apenas a algumas reflexões sobre o mesmo. E espero sinceramente que este breve material possa convencê-lo de alguma maneira do grande mal que esta prática proporciona. Aos que não a tem, permaneçam longe. Aos que a tem, pelo bem de vocês e dos outros ao seu redor, busquem mudança imediatamente. Nem vocês e nem ninguém merece sofrer por isso. Abaixo, deixo juntamente com o texto do Luiz, alguns materiais de apoio que podem ajudar àqueles que buscam romper com este hábito:


* “O mal da pornografia e da masturbação”: curso gratuito por Padre Paulo Ricardo de Azevêdo Júnior: https://www.youtube.com/watch?v=AsdNMb0teVI&list=PLHklNC5Otp0HEhZkp3rbXPQAOaqI-uzRj

** “Masturbação: Nunca Mais!” aula por Padre Paulo Ricardo de Azevêdo Júnior: https://www.youtube.com/watch?v=YCB9vFRfE7E

“Gary Wilson esclarecendo cientificamente os riscos do vicio em Pornografia.” Entrevista com o phd Gary Wilson: https://www.youtube.com/watch?v=AcPXoN1KJ8U

“A grande experiência da pornografia | Gary Wilson | TEDxGlasgow”: palestra no TED Talks pelo phd Gary Wilson: https://www.youtube.com/watch?v=79659__OKEg

(1)   SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Rio de Janeiro: Record, 2017. p. 225-226.
(2)   SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Rio de Janeiro: Record, 2017. p. 227.

* O presente curso não visa fazer propaganda religiosa, apenas se debruça sobre uma série de questões práticas com respaldo científico. Indicado para católicos e não-católicos;

** A presente aula não visa fazer propaganda religiosa, apenas se debruça sobre uma série de questões práticas com respaldo científico. Indicado para católicos e não-católicos;

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