(Descida de Cristo ao limbo, por Hieronymus Bosch)
Johnny Cash, um dos maiores nomes do country – e da música em geral – é autor de centenas de célebres composições. Todavia, uma delas me chama a atenção justamente por sua letra, letra esta que pode muito bem ser ponto de partida para uma reflexão mais aprofundada e séria sobre uma das realidades mais controversas – e também essenciais – à nossa fé. A música em questão é God’s gonna cut you down (“Deus o reduzirá”, numa tradução livre), e esta traz consigo toda uma ideia de retribuição e imutabilidade, como se todos estivéssemos fadados a um mesmo destino, independente do quanto lutássemos. Toda a canção tem versos bastante poéticos, mas é o conceito central dela que me chama a atenção, e sempre que a ouço, esse conceito me parece mais e mais familiar. Porém, foi lendo o livro O Inferno, do monsenhor de Ségur que percebi qual era a ideia que tanto despertava a minha curiosidade: God’s gonna cut you down é, sobretudo, sobre punição e responsabilidade.
Monsenhor Louis Gaston de Ségur publicou O Inferno em 1876
e, como o título superexpositivo sugere, traz uma breve, mas profundíssima,
reflexão sobre a pena eterna do inferno, se esta é real, em que consiste, etc.
e num dado momento somos instigados com a questão: por que tanta gente se
esforça para negar a existência do inferno?
O próprio monsenhor de Ségur responde essa questão. Assim
escreve:
“A maior parte dentre esses esforçados
deseja que o inferno não exista. São como os ladrões que, se pudessem, destruiriam
a polícia, porque todas as pessoas que <<sentem os encargos>>
estarão sempre a fazer o possível e o impossível para se persuadirem de que o
inferno não existe, pois bem sabem que, havendo um, sua utilidade é exatamente
para pessoas como eles.” (1)
E continua, desta vez com uma breve analogia:
“Não são diferentes dos covardes que,
cantando à toda voz numa noite escura, tentam se convencer de que não sentem o
medo que os ataca. Para se encher mais ainda de coragem querem persuadir aos
outros de que o inferno não existe.”(2)
Nesse contexto, fica claro que a postura daqueles que negam
a existência do inferno enquanto “pena eterna aos pecados não remidos” o fazem,
em sua maioria, não como intelectuais céticos tomados pela certeza de que este
conceito se trata de “manipulação de massa mediante a perpetuação do medo e do
escrúpulo irracional”, mas sim como gente que procura alimentar em si mesma e
nos outros um sentimento de fuga. Mas fuga de quê?
A priori, convém recordar em que consiste a doutrina do
inferno. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), define-o desta forma:
“Não podemos estar unidos a Deus se não
fizermos livremente a opção de amá-lo. Mas não podemos amar a Deus se pecamos
gravemente contra Ele, contra nosso próximo ou contra nós mesmos: "Aquele
que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e
sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele" (1 Jo
3,14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados dele se deixarmos
de ir ao encontro das necessidades graves dos pobres e dos pequenos que são
seus irmãos morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o
amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo-Poderoso para
sempre, por nossa própria opção livre. E é este estado de auto-exclusão
definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a
palavra "inferno".”(3)
“ Jesus fala muitas vezes da
"Geena", do "fogo que não se apaga", reservado aos que
recusam até o fim de sua vida crer e converter-se, e no qual se pode perder ao
mesmo tempo a alma e o corpo. Jesus anuncia em termos graves que "enviar
seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que
praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente" (Mt 13,41-42), e
que pronunciar a condenação: "Afastai-vos de mim malditos, para o fogo
eterno!" (Mt 25,41).”(4)
“As afirmações da Sagrada Escritura e os
ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um chamado à responsabilidade com
a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno.
Constituem também um apelo insistente àconversão: "Entrai pela porta
estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos
são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que
conduz à vida. E poucos são os que o encontram" (Mt 7,13-14): Como
desconhecemos o dia e a hora, conforme a advertência do Senhor, vigiemos
constantemente para que, terminado o único curso de nossa vida terrestre,
possamos entrar com ele para as bodas e mereçamos ser contados entre os
benditos, e não sejamos, como servos maus e preguiçosos, obrigados a ir para o
fogo eterno, para as trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de
dentes.”(5)
“Deus não predestina ninguém para o
Inferno; para isso é preciso uma aversão voluntária a Deus (um pecado mortal) e
persistir nela até o fim. Na Liturgia Eucarística e nas orações cotidianas de
seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, que quer "que ninguém
se perca, mas que todos venham a converter-se" (2Pd 3,9): Recebei, ó Pai,
com bondade, a oferenda de vossos servos e de toda a vossa família; dai-nos
sempre a vossa paz, livrai-nos da condenação e acolhei-nos entre os vossos
eleitos.”(6)
Note como nesta definição aparecem vários termos que
sugerem arbitrariedade e voluntariedade (“Não podemos estar unidos a Deus se
não fizermos livremente a opção de amá-lo”, “[...] separado do Todo-Poderoso
para sempre, por nossa própria opção livre”, “Deus não predestina ninguém para
o Inferno”, etc.), deixando claro várias vezes que a pena do inferno não é uma
questão de “má sorte”, mas de pleno exercício de nosso livre-arbítrio. A ideia
central dessa definição poderia ser resumida neste trecho:
“As afirmações da Sagrada Escritura e os
ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um chamado à responsabilidade com
a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno.”
Diante disso, somos capazes de entender com muito mais
clareza em quê consiste o horror de tantos ante a perspectiva do inferno: não
se trata do medo do fogo ou das torturas infindáveis, mas justamente da ideia
de ter que assumir plena responsabilidade pelos seus atos. A ameaça de um
inferno eterno sempre enfrentou resistência ao longo da história humana, mas
nunca tanta como enfrenta hoje, e o motivo está justamente no fato do inferno
ser um convite ao amadurecimento.
Como vimos, se você é condenado, o é não porque Deus é um
tirano cruel e sádico que se apraz com o sofrimento de pobres almas inocentes,
mas justamente porque você arbitrariamente escolheu se afastar Dele. Ora, sendo
Deus o Sumo Bem, e fonte de toda luz de bondade, afastar-se Dele significa
escolher permanecer nas trevas do mal, onde só há ódio e desespero. Não há bem
nenhum nas trevas (justamente pela condição destas ser a ausência do Sumo Bem),
e aqueles que permanecem nelas só conhecem o medo o horror. Escolher livremente
a Deus é, portanto, tomar participação nesse bem e se unir a ele. A esta união
damos o nome de amor.
O amor, porém, e bem mais que um sentimento meramente
carnal: o amor constitui uma gratuidade na entrega sem reservas do amante ao
amado. Amar, nessa ótica, é uma atitude consciente, uma inclinação da vontade
da alma e isto, por sua vez, exige sacrifício e, sobretudo, exige
responsabilidade. Rejeitar a Deus e consequentemente merecer o inferno
significa renegar ao amor, e a todos os benefícios advindos deste.
O grande problema é que a esmagadora maioria das pessoas no
mundo moderno simplesmente não quer amar, não quer se entregar em sacrifício e
principalmente, não quer assumir responsabilidades. A muitos interessa somente
o prazer momentâneo e a satisfação passageira provenientes de certas atitudes
que, por si só, renunciam ao amor de Deus. Noutras palavras, essas pessoas
buscam apenas o perfume da flor, mas sem necessariamente abraçar os espinhos
desta. Uma postura tipicamente mesquinha, infantil, egoísta e, acima de
qualquer coisa, irresponsável, vinda de gente que quer gozar de sua liberdade,
mas sem prestar contas da mesma – vulgo libertinagem. Essa postura é, por si só
absurda e irreal, haja vista que a ideia de retribuição pelas próprias atitudes
(congratulações se estas forem boas ou punição se estas
forem más) é uma ideia presente em toda e qualquer sociedade. Seja hades,
helheim, sheol, karma ou até mesmo a vulgar “lei do retorno”, toda civilização
sempre manifestou a crença na ideia de que se você faz alguma coisa, pode até
não sentir os efeitos imediatos, mas em algum momento vai sofrer a pena de se
responsabilizar por isso. O conceito cristão de inferno nada mais é que a
reafirmação plena desta ideia. O homem moderno porém, se tornou tão atrofiado
em seu subjetivismo que tenta, a todo custo, afastar de si essa perspectiva.
Ele simplesmente NÃO quer assumir responsabilidades, não quer sofrer a dor de
um sacrifício e acima de tudo, não quer amadurecer. Ao contrário, prefere a
animadora posição de uma eterna criançona: mimada, sentimentalista, libertina e
egocêntrica que, diante da “prestação de contas” foge infantilmente dos
resultados de suas próprias ações.
Amar é pra adultos - ou, no mínimo, pra gente madura e
responsável – e são pouquíssimos os que hoje se empenham em pagar o preço por
essa maturidade: a maioria só se importa mesmo em satisfazer os próprios
caprichos sem olhar para o amanhã. Nesse sentido, poucos são aqueles que
verdadeiramente encontram a Deus, visto que ele é a fonte de todo amor. Nesse
cenário, a maioria simplesmente não o busca. Assim sendo, a passagem do
evangelho de Lucas em que Cristo diz: “Procurai entrar pela porta estreita;
porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão.” (cf. Lucas 13,
24) é talvez uma das maiores análises antropológicas de todos os tempos: ora,
se poucos se salvam, muitos se condenam, e se muitos se condenam é porque estes
não escolhem amar. Amar evoca responsabilidade e responsabilidade evoca
amadurecimento. Nesse sentido, a parte mais aterradora da ideia do inferno não
é o fogo voraz; não são os demônios zombadores; não são as torturas
diabolicamente criativas; a parte mais aterradora do inferno é o confronto
consigo mesmo. A pior punição do inferno é justamente sermos colocados cara a
cara com o produto de todas as escolhas que livremente fizemos ao longo da vida
e sermos forçado a assumir plenamente a responsabilidade por elas. E nada pode
ser mais horrorizante ao homem moderno. Eis a real raiz de seu repúdio à
perspectiva do inferno.
É interessante notarmos que a iniquidade humana não reside
totalmente em assumir seus crimes e se deleitar neles, mas justamente em não
assumi-los. Se o egoísmo constitui a raiz de todo pecado, a imaturidade e a
irresponsabilidade constituem o caule. Nenhuma pessoa nesse mundo é cem por
cento boa ou má; essa é uma visão simplisticamente maniqueísta. Ninguém que
verdadeiramente enxerga seus pecados como pecados (isto é, manifestações de
ódio egoísta que o separam do Sumo Bem) tem prazer nisso. Eu não escolho um mal
se o vejo claramente como mal. É contra a natureza do homem. A claudicação ao
pecado nada mais é que a conversão ilusória do mal em bem. Convém ressaltar ainda
que a aparente ameaça de punição divina e eterna aos homens é nada mais que um
convite a estes para que abracem plenamente sua própria natureza, isto é, a
maturidade de corpo, alma e espírito.
Porém, ao chegarmos nesse ponto, novos problemas surgem.
O primeiro deles é a negação da pena comentada pelo
monsenhor de Ségur. Mesmo num reino de relativismo como é o mundo moderno,
algumas pessoas ainda reconhecem a existência de um bem e mal absolutos, e para
justificar a escolha pelo mal, é mais cômodo crer que não há inferno. A estes
agradaria enormemente a impunidade. Do outro lado temos aqueles que atacam a
própria moral. Estes até tendem a considerar a existência do inferno, mas
evitam falar nele, usando argumentos – não supreendentemente - relativistas em prol
da ideia de que não há prestação de contas justamente porque não há contas a
prestar. Este segundo grupo mostra-se muito presente inclusive dentro do meio
cristão, e vale-se de centenas de máximas cínicas como “não julgueis” ou “só
Deus pode me julgar” ou até mesmo “eu não preciso confessar meus pecados a um
padre, eu me confesso diretamente a Deus”. Este último é muito famoso entre
aqueles mais aversos ao sacramento da Penitência, e eles o são justamente
porque a Confissão faz o homem, ainda aqui nesta Terra, assumir a
responsabilidade por seus erros e
manifestar seu arrependimento (o que, do contrário,
invalidaria o sacramento, tornando o esforço inútil de qualquer forma). O que
tais pessoas fazem é simplesmente pregar ad infinitum um falso amor com resquícios
de moralismo sentimentalista e deturpações do Evangelho, cujo único propósito é
servir de cortina de fumaça para seus próprios erros, fugindo a todo custo da
responsabilidade de reformar a própria vida. A essência dessas falácias é
sempre a mesma, e tendo consciência da essência delas, torna-se difícil não
ouvi-las simplesmente como “Me deixe ser imaturo em paz!”, reforçando mais e
mais a natureza irresponsável e irracional de sua postura. No final das contas,
renegar ao inferno por um lado ou pelo outro é algo feito quase sempre por
comodidade – salvos os casos daqueles que são realmente incrédulos.
Refletir sobre a pena do inferno é, portanto, muito mais do
que perpetuar uma história de terror para educar criancinhas. Para além da
impressão vulgar que geralmente se tem sobre isso, meditar sobre a realidade da
punição eterna é um convite à autorreflexão, a olhar para dentro de si mesmo e
buscar vencer, com a graça e o amor divino, a condição humana de mesquinharia,
egoísmo, irresponsabilidade e imaturidade e atingir a plenitude da natureza e
vocação do homem, isto é, o Céu. Fugir disso é fugir da luz para as trevas, e
nelas tudo que se há de encontrar é o desespero e o vazio de Deus,
separando-se, assim do Sumo Bem. Poderíamos atribuir ainda a perda desta
reflexão como um dos motivos da crescente crise de fé instaurada na Igreja: uma
vez que perde-se a visão e abole-se a catequese do inferno, perde-se a
oportunidade de encontrar-se consigo mesmo e, por conseguinte, a oportunidade
de se encontrar com Deus, pois como diz-nos mais uma vez o monsenhor de Ségur:
“o missionário do Céu é o inferno”. Quando o homem perde a noção de causa e
consequência, desconecta-se completamente da realidade, visto que esta é
construída quase que inteiramente sob essa noção. Desta forma, concluímos que a
insistência na realidade o inferno é, na verdade, um chamado de Deus ao homem:
ao refletir sobre as próprias faltas e reconhecê-las eficientemente como tais,
o homem excita a si mesmo à busca pela mudança de vida e reforma da mesma. Que
a partir desse momento abramos nosso coração cada vez mais aos apelos divinos,
e busquemos com mais e mais intensidade corresponder sinceramente Àquele que
tanto nos amou, que continua nos amando e que permanece fazendo o possível e o
impossível em prol da nossa santificação.
E assim como iniciei, encerro este breve ensaio nas
palavras do grande músico – e catequista em potencial – Johnny Cash:
Vá dizer para aquele mentiroso de lingua
comprida
Vá dizer para aquele cavaleiro da
meia-noite
Diga ao vagabundo, ao jogador, ao
trapaceiro
Diga a eles que Deus o reduzirá
“Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do
fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu e socorrei principalmente as
que mais precisarem. Amém.”
(1) SÉGUR, Monsenhor de (2014). O Inferno
(3ª edição). Campinas, Ecclesiae.
(2) Idem.
(3) CIC, §1033
(4) CIC, §1034
(5) CIC, §1036
(6) CIC, §1037

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